eu tentava passar, mas não dava. Mesmo sendo poucos, eram grossos, gelados, caiam como pequenas bombas em mim, entrando pelas minhas costas, esbofeteando meu nariz, e despenteando meu cabelo.
Era inútil qualquer forma de resistir à natureza, mas, ao contrario dos mundanos que se refugiavam em toldos e pontos de ônibus, lá estava eu.
Malabarista curitibano, entre suas calçadas sinuosas estrebuchava sozinho em busca de vencer a maldita chuva que anunciava sua chegada com o batalhão de frente de chuviscos pontiagudos.
Se ao menos tivesse com minha armadura negra, ou um simples jornaleco para conter o ataque frontal do inimigo... Mas estava sozinho, e naquela altura do campeonato sabia que era inútil correr, pois seria alvo fácil. Tinha que parar, ser cauteloso, sentir o inimigo prever seus passos e como uma o vento desviar de seus pingos que continuavam a cair desbaratinadamente.
Mas já não tinha mais como resistir, eles eram muitos e eu muito grande para resistir. Entreguei-me, mais ou menos lá na Tibagi com a Marechal Deodoro levantei minha bandeira branca, e a chuva como um macho tentando impressionar sua fêmea gritou, uivou e pisou em mim com um mar de pequenas gotas finas e violentamente rápidas.
Os humanos presentes não entendiam porque resistia a ela, meros fracos que não lutaram por uma roupa seca.
E foi naquela esquina que depois daquele batizado, a chuva se apaixonou por mim. Era apenas uma criança insegura e carente que estava com medo de mim, afinal de contas a pouco mais de 20 anos havia a abandonado.
Não era difícil lembrar-se de minhas fugidas com a bicicleta aonde alcançava a liberdade extrema ao abrir a boca e tomar água de chuva.
Tinha me tornado um adulto chato, um velho carrancudo que virou as costas para um de seus amigos, e ela ficou eternamente, tentando brincar comigo, mas nunca mais quis nem ouvi-la.
Desculpa-me pobre e tão linda chuva. Vamos brincar como outrora, vou pular em você até chegar a sete de setembro.
Só quero saber, quem vai lavar minha roupa depois.
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