quinta-feira, 24 de julho de 2008

Entre pingos d' água...


eu tentava passar, mas não dava. Mesmo sendo poucos, eram grossos, gelados, caiam como pequenas bombas em mim, entrando pelas minhas costas, esbofeteando meu nariz, e despenteando meu cabelo.
Era inútil qualquer forma de resistir à natureza, mas, ao contrario dos mundanos que se refugiavam em toldos e pontos de ônibus, lá estava eu.
Malabarista curitibano, entre suas calçadas sinuosas estrebuchava sozinho em busca de vencer a maldita chuva que anunciava sua chegada com o batalhão de frente de chuviscos pontiagudos.
Se ao menos tivesse com minha armadura negra, ou um simples jornaleco para conter o ataque frontal do inimigo... Mas estava sozinho, e naquela altura do campeonato sabia que era inútil correr, pois seria alvo fácil. Tinha que parar, ser cauteloso, sentir o inimigo prever seus passos e como uma o vento desviar de seus pingos que continuavam a cair desbaratinadamente.
Mas já não tinha mais como resistir, eles eram muitos e eu muito grande para resistir. Entreguei-me, mais ou menos lá na Tibagi com a Marechal Deodoro levantei minha bandeira branca, e a chuva como um macho tentando impressionar sua fêmea gritou, uivou e pisou em mim com um mar de pequenas gotas finas e violentamente rápidas.
Os humanos presentes não entendiam porque resistia a ela, meros fracos que não lutaram por uma roupa seca.
E foi naquela esquina que depois daquele batizado, a chuva se apaixonou por mim. Era apenas uma criança insegura e carente que estava com medo de mim, afinal de contas a pouco mais de 20 anos havia a abandonado.
Não era difícil lembrar-se de minhas fugidas com a bicicleta aonde alcançava a liberdade extrema ao abrir a boca e tomar água de chuva.
Tinha me tornado um adulto chato, um velho carrancudo que virou as costas para um de seus amigos, e ela ficou eternamente, tentando brincar comigo, mas nunca mais quis nem ouvi-la.
Desculpa-me pobre e tão linda chuva. Vamos brincar como outrora, vou pular em você até chegar a sete de setembro.
Só quero saber, quem vai lavar minha roupa depois.

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