sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Devaneios de Joana

Entre piscadelas e sonhos de milisegundos, tentava me manter acordado à encantadora entediante aula do professor Renato. Ficava pensando enquanto brincava com a lapiseira entre os dedos, como um homem conseguia ter uma bunda daquele tamanho.

Simplesmente aquilo não era normal, era desproporcional e para um professor, que por força da profissão fica mais tempo de costas para o público que de frente, creio que era um tanto quanto inadequado.

Era um mistério que como cálculo II, não estava a fim de desvendar, não naquele momento. Mas por questão de educação lutava contra minhas pálpebras para permanecer acordado.
Em uma última tentativa, decidi de uma vez só, trocar bruscamente de posição, respirar profundamente, levantar a cabeça e procurar me distrair. Olhei para todos os lados, todas as direções, mas foi no caderno de Emílio que meu olhar resolveu aterrizar.
Só poderia estar louco, ou com os óculos embaçados, mas tinha certeza que aquela foto a qual Emílio olhava no caderno, era da minha Jôjo. Sem sobra de dúvidas, só podia ser ela, abraçada a ele de uma forma tão íntima. A minha Jôjo e o Emílio batatão; porque mundo cruel? Justamente quando achei que teria finalmente encontrado o meu grande amor.
Mas estava lá, meus olhos não me deixavam mentir.
“O inimigo está na carteira ao lado!”.
A voz do professor Renato mal chegava aos meus ouvidos. A raiva e a tristeza tomavam conta de mim e ficavam evidentes em meu semblante.
Só pensar que Joana estava tendo um caso com outro, beijando outro, amando outro, meu coração começava a bater descompassado;
Imagens tortas de Emílio e Joana, na cama, suados, se comendo em desejo, ela tentando o satisfazer com movimentos repetidos e grunhidos de prazer, repetindo como numa gravação as mesmas juras que há horas atrás dizia em meus ouvidos, seu corpo delicado sendo apertado pelas mãos que refletiam o clímax que o momento lhes causavam, o barulho da cama, a janela embaçada, a roupa jogada desuniformemente pelo quarto, a embalagem da camisinha rasgada, caída em algum canto.
Aquilo estava me matando. Não conseguia me agüentar na carteira, minha cabeça começava a doer, meu punho começava a fechar, o celular vibrou.
A vagabunda mandando mensagens de amor. Ah! Mas que piranha. Esperta achou que não descobriria e ainda por cima tenta me cegar provando que está completamente em minha mão.
Provavelmente a cadela, insaciável, pensou: Ele mora no centro, o Emílio no Bacacheri, pelo que eu sei não são amigos, não se conhecem, um faz humanas, outro exatas, nunca se verão, se acaso encontrarem-se nunca conversarão, o Emílio é gostoso, ele é maravilhoso, mas se um é bom, dois é melhor ainda.
Pois o erro dela foi ter-me esquecido de lhe contar que estava fazendo calculo II com humanas por ser mais fácil, e conhecer Emílio através de um outro camarada.
Ordinária, já começava a pensar no que dizer a ela, humilhá-la ou vingar-me...
Só sei que antes, era hora de acertar a contas com este filho da puta do Emílio.
A aula acabou, não conseguia olhar para nada, apenas levantei e tomado pela fúria fui em direção à carteira do Emílio, que começava a se levantar. Eu praticamente indo para lhe dar um soco no meio da cara:
- O que a foto desta mulher com você significa? (gritando... a sala parou).
- Esta? Minha irmã, Verônica.
- Ah!

Um comentário:

Bonnie Jong disse...

engraçado como amar nos torna cegos, né? e a gente vê (ou deseja ver) a mesma pessoa em todos os lugares, de todas as formas, todos os dias, em todos os pensamentos, e sonhos... e aí se transforma num vício... e a gente cria neuroses, e imagina coisas, e discute, e briga, e termina...
e o amor, que existia - e era óbvio que existia - morre.


a vida é mesmo incrível, você não acha? :D